segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Randomized Trial of Intensive versus Standard Blood-Pressure Control

SPRINT Research Group, Wright JT Jr, Williamson JD, Whelton PK, Snyder JK, Sink KM, Rocco MV, Reboussin DM, Rahman M, Oparil S, Lewis CE, Kimmel PL, Johnson KC, Goff DC Jr, Fine LJ, Cutler JA, Cushman WC, Cheung AK, Ambrosius WT.

N Engl J Med 2015, 373(22):2103-16.

Trata-se de ECR conduzido com o objetivo de avaliar se a redução da pressão arterial (PA) sistólica abaixo de 120 mmHg, em uma população adulta sem diabetes, traz benefícios em desfechos cardiovasculares (CV), renais e mortalidade, quando comparada ao controle pressórico usual, recomendado pelos consensos (≥ 60 anos, alvo < 150/90; < 60 anos, alvo < 140/90 mmHg – JNC8). Foram incluídos adultos ≥ 50 anos, com medidas de PA sistólica (PAS) entre 130-180 mmHg em uso ou não de anti-hipertensivos e risco aumentado de eventos CV (presença clínica ou subclínica de doença CV, escore Framingham ≥ 15%, idade ≥ 75 anos ou doença renal crônica – DRC - com TFG 20-59ml/min/1.73m²). Excluíram-se pacientes com DM, AVC, DRC dialítica ou insuficiência cardíaca (IC) com FEVE < 35%. Os participantes foram randomizados entre meta de PAS < 140mmHg ou < 120mmHg e todas as classes de anti-hipertensivos foram utilizadas, a critério do médico investigador. O desfecho primário era composto pela ocorrência de eventos CV maiores (MACE) - IAM, AVC, descompensação de IC, síndrome coronariana aguda (SCA) e morte cardiovascular. Qualquer um dos MACE isoladamente, morte por qualquer causa e a composição ‘’desfecho primário ou morte por qualquer causa’’ constituíam o desfecho secundário, juntamente à incidência de microalbuminúria (>10 mg/g de creatinina) e à redução da TFG (de acordo com o estágio da DRC no baseline). A amostra foi calculada em 9.250 pacientes para detectar com poder de 88,7% um efeito de 20% sobre o desfecho primário, assumindo uma taxa de 2,2% eventos-ano no grupo controle. O comitê de monitoramento de dados e segurança do estudo avaliava periodicamente o efeito da intervenção através do método de Lan-DeMets (alpha spending function). As análises foram feitas por intention to treat. 
Foram randomizados 9.361 pacientes, idade média 68 anos (30% maiores de 75 anos), com seguimento previsto de 5 anos. Em agosto de 2015, após 3,26 anos da randomização, o estudo foi interrompido por atingir o limite para evidência do benefício da intervenção. Houve 986 perdas, porém todos os randomizados foram incluídos na análise. Ao final do estudo, observou-se que o grupo intervenção atingiu PAS média de 121,5 mmHg e o controle, 134,6 mmHg; ambas inferiores à PAS no baseline (média 139 mmHg). Em relação aos eventos de interesse, 6,8% dos pacientes (319 eventos) com controle pressórico padrão sofreram o desfecho primário, que acometeu em 5,2% (243 eventos) daqueles sob tratamento intensivo (HR 0,75; IC95% 0,64-0,89, P < 0,001). A redução do desfecho primário foi principalmente por redução de descompensação de IC (HR 0,62; IC95% 0,45-0,84, P = 0,002) e diminuição de 43% na ocorrência mortalidade cardiovascular (HR 0,57; IC95% 0,38-0,85, P = 0,005). Houve também redução de 27% na taxa de mortalidade geral nesse grupo (HR 0,73; IC95% 0,60-0,90, P = 0,003). Com alvo de PAS < 120mmHg, houve redução absoluta de risco de 1,6% (NNT = 62) no desfecho primário. Os principais efeitos adversos da intensificação do controle pressórico foram incidência 66% maior de insuficiência renal aguda (HR 1,66, P = 0,001), maior ocorrência de hipotensão (HR 1,67, P = 0,001), síncope (HR 1,33, P= 0,05), e distúrbios eletrolíticos (HR 1,35, P = 0,02). O grupo intensivo usou em média 3 anti-hipertensivos, enquanto o padrão, 2. No Clube de Revista foram assinalados os seguintes apontamentos:
·         Não se podem extrapolar os resultados deste estudo para hipertensos em geral. Porém, os resultados podem indicar intensificação do tratamento pressórico em pessoas > 60 anos, confrontando a recomendação vigente de alvo < 150/90 mmHg, visto que 30% dos pacientes arrolados eram ≥75 anos;
·         A redução do alvo da PAS é uma opção a ser discutida com o paciente, pois incorre em aumento do número de anti-hipertensivos usados e efeitos adversos, potencialmente graves. Como o estudo foi interrompido antes do previsto, a avaliação do impacto desses efeitos adversos em longo prazo ficou prejudicada;
·         O critério de inclusão ‘’PA sistólica’’ não foi claramente descrito (se PA medida em mais de uma ocasião, se foi utilizado MAPA, etc). A aferição da PA em ambiente de ECR costuma resultar 5 mmHg menor do que a aferida em ambiente convencional. É importante garantir que não haja má-adesão e que a medida da PA esteja correta antes de propor intensificação do tratamento.

Pílula do Clube: reduzir a PAS para menos de 120 mmHg em uma população selecionada de adultos (não diabéticos, alto risco CV, maiores de 50 anos) promove redução significativa de eventos CV e da mortalidade geral, às custas da maior ocorrência de efeitos adversos como IRA e distúrbios eletrolíticos. Buscar um alvo pressórico inferior àqueles recomendados nos consensos atuais é uma estratégia para diminuir morbimortalidade CV, devendo ser discutida com o paciente.


Discutido no Clube de Revista de 16/11/2015.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes

  A. Michael Lincoff, Kirstine Brown‐Frandsen, Helen M. Colhoun, John Deanfield, Scott S. Emerson, Sille Esbjerg, Søren Hardt‐Lindberg, G. K...