segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Hormonal Contraception and Risk of Thromboembolism in Woman with Diabetes

Sarah H. O’Brien, Terah Koch, Sara K. Vesely, Eleanor Bimla Schwarz.

Diabetes Care 2017, 40(2):233-238.

Trata-se de estudo de coorte realizado nos EUA com objetivo de avaliar o risco de trombose venosa (TV) entre os métodos de contracepção hormonal disponíveis em mulheres com diabetes. Foi utilizada a base de dados Clinformatics (47 milhões de pacientes asseguradas por plano de saúde) e participaram do estudo mulheres entre 15-45 anos que possuíam CID de diabetes no prontuário. Os desfechos trombose, AVC e IAM foram avaliados através do CID em prontuário. Para o diagnóstico de TV a paciente deveria ter dispensação de anticoagulante por pelo menos um mês. O estudo separou os anticoncepcionais por método, tipo de progesterona e dose de estrogênio. A análise estatística foi realizada através do modelo de Cox ajustado para idade, diabetes avançado, tabagismo, obesidade, hiperlipidemia e câncer.
Foram selecionados registros de 146.080 mulheres que preenchiam os requisitos do estudo; 70% não utilizam nenhum método anticoncepcional, 4% utilizavam progesterona apenas e 25% utilizavam medicação contendo estrogênio. Das mulheres analisadas, 25% tinham diabetes com complicações, 34% eram hipertensas e 9% eram fumantes. Quando analisados os contraceptivos com estrogênio, não houve diferença no risco de TV entre os grupos com menos ou mais de 30 mcg de estrógeno (RR 0,79 IC95%0,48-1,05 P=0,09). Também não houve diferença entre as usuárias de diferentes tipos de progesterona (desogestrel, drosperinona, gestodeno e pílula só de progesterona). Quando comparados aos contraceptivos orais, o patch transdérmico se associou a aumento de risco de TV (RR 1,68 IC95%1,14- 2,49 P=0,0091).  Ao comparar-se os anticoncepcionais que apenas possuíam progesterona na sua composição com o DIU, a pílula com progesterona (RR 3,69 IC95% 2,10-8,77 P<0,0001) e a medroxiprogesterona depósito (RR 4,69 IC95% 2,51-6,48 P<0,0001) se associaram com aumento de risco de TV. Quando comparado o anticoncepcional oral combinado com o de apenas progesterona, houve aumento de eventos tromboembólicos em mulheres com menos de 35 anos (RR 0,6 IC95% 0,4-0,81 P=0,0009), já nas com mais de 35 anos não houve maior risco de TV. Comparado com nenhum método em uso, o anticoncepcional oral contendo estrógeno se associou com aumento de risco (RR 3,638 IC95% 2,94-3,88 P< 0,0001) e o apenas com progesterona igualmente (RR 2,02 IC95% 1,51- 2,07 P< 0,0001). Foram discutidos no clube os seguintes aspectos:
·         A prevalência de mulheres em idade fértil com diabetes sem uso de métodos anticoncepcionais é muito alta. Considerando que a gestação em uma paciente sem controle glicêmico adequado pode aumentar a chance de mal formações fetais  e de outras complicações, este fato é grave;
·         A prevalência de TV no grupo etário avaliado é muito baixa; apesar do diabetes e do anticoncepcional hormonal oral serem fatores de risco para aumento de TV, este se manteve baixo;
·         Observou-se aumento de eventos tromboembólicos em todos grupos analisados, apesar da baixa prevalência. O método com maior risco foi o patch transdérmico, contudo o resultado não foi ajustado para possíveis fatores de risco que possam ter influenciado o resultado, como trombofilias e traumas;
·         O método que menos se associou com eventos tromboembólicos foi o DIU, sendo um método extremamente eficaz e sem aumento de eventos trombóticos descritos na literatura.

Pílula do Clube: Neste estudo observou-se um maior número de eventos tromboembólicos com o uso de anticoncepcional hormonal quando comparado com o não uso. Quando analisado em um contexto maior, o risco é extremamente baixo e, portanto, o estudo não suporta evidência que contraindique o uso do anticoncepcional hormonal em mulheres com diabetes.


Discutido no Clube de Revista de 30/01/2017.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Single-blind, placebo controlled randomised clinical study of - for body weight reduction

VR Trivedi, MC Satia, A. Deschamps, V. Maquet, RB Shah, PH Zinzuwadia and JV Trivedi

Nutr J 2016, Jan 8;15:3. 

Trata-se de ensaio clínico randomizado, simples-cego, placebo-controlado, multicêntrico, objetivando avaliar a eficácia do medicamento quitosan vs. placebo na perda de peso em pacientes com sobrepeso ou obesidade. Os pacientes foram randomizados para receber quitosan 2.5g (500 mg no café, 1g no almoço e 1g no jantar) ou placebo ao longo de 90 dias sem restrição dietética associada. Os critérios de inclusão eram idade 18-65 anos e IMC 26-35 kg/m². Eram critérios de exclusão: pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos nos últimos 6 meses, procedimentos redutores de gordura no último ano, uso de injeções subcutâneas no último mês, uso de doses estáveis de metformina, pioglitazona ou análogos do GLP-1, história de sangramento, alergia ao quitosan, uso de vitaminas lipossolúveis ou outros suplementos, portadores de DM ou HAS não controlados, doença inflamatória intestinal, gravidez ou lactação e uso de medicamentos para emagrecer no último mês. Os pacientes eram orientados a manter a dieta habitual e a relatar os padrões de ingestão nos dias 1-5, 41-45 e 86-90. O desfecho primário foi redução do peso em relação ao basal nos dias 45 e 90 do estudo. Desfechos secundários incluíam mudança no IMC, na composição corporal, nas medidas antropométricas, no perfil lipídico, na HbA1c e na qualidade de vida. Foram randomizados 96 pacientes (64 no grupo do quitosan e 32 no grupo placebo), porém apenas 86 pacientes completaram o estudo (56 no grupo do quitosan e 30 no grupo placebo) e foram analisados. A idade média dos participantes era de 35,5 no grupo do quitosan e 36,3 no grupo placebo. O peso médio era de 80.1 vs. 80.5 quilos. Não houve diferença entre os dados demográficos no basal. Ao final de 45 dias o peso reduziu 1,78 kg em relação ao basal no grupo intervenção vs. 0,31 kg no grupo placebo (P<0,0001). Após 90 dias, o peso reduziu 3,10 kg em relação ao basal no grupo intervenção vs. 0,33 kg no grupo placebo (P<0,0001). O IMC do grupo intervenção reduziu 0,69 kg/m2 aos 45 dias e 1,20 kg/m2 aos 90 dias, enquanto que no grupo placebo essa redução foi de 0,11 kg/m2 nos dois momentos examinados (P<0.0001). Também houve redução discreta na gordura corporal e visceral. O grupo do quitosan teve uma perda maior de massa magra em relação ao placebo, sendo -0,45 kg aos 45 dias e -0,74 kg aos 90 dias, enquanto que o grupo placebo perdeu 0,2 kg aos 45 dias e 0,08 aos 90 dias (P=0,0008). Não houve diferença no perfil lipídico ou na HbA1c entre os grupos. Durante o clube foram discutidos os seguintes aspectos:
·         Os autores classificam o ensaio clínico como de fase IV, no entanto o delineamento direcionado à eficácia, a curta duração do estudo e a incerteza sobre a aprovação do medicamento para o tratamento da obesidade talvez indiquem que o estudo é de fase III;
·         Há descrição de cegamento dos pacientes e dos investigadores, portanto a denominação “simples cego” está inadequada;
·         O estudo questiona a eficácia dos trabalhos anteriores com a droga quanto à eventual variabilidade da dieta dos pacientes, mas o fato de permitir uma dieta irrestrita não controlada também poderia acarretar variações alimentares entre os participantes;
·         A análise dos resultados foi por protocolo;
·         O fluxograma do estudo poderia ter explicitado melhor as razões da não inclusão dos pacientes na fase inicial. Também poderia omitir a separação por sexo dos pacientes incluídos no estudo, dado melhor informado na descrição dos dados demográficos;
·         A tabela 1 descreve pobremente os dados demográficos. Não há sequer menção ao IMC basal dos pacientes, dado de extrema importância em estudos de obesidade. Também não há estratificação entre pacientes com sobrepeso e com obesidade, bem como não há estratificação quanto às comorbidades, que são listadas em conjunto apenas no corpo do texto;
·         Os autores enfatizam diversas vezes a significância estatística das diferenças em variáveis dentro do mesmo grupo, quando na verdade a avaliação importante clinicamente é aquela que compara o grupo intervenção com placebo. O uso excessivo de asteriscos e outros símbolos na tabela para denotar tais diferenças deixa a apresentação dos dados confusa;
·         O número de participantes em cada ponto de análise (dia 0, 45 e 90) variou e como em cada momento houve perdas a comparação dos dados é feita com grupos diferentes de pessoas nos diferentes momentos;
·         O uso da HbA1c como desfecho é questionável já que variações em períodos menores que 90 dias não se traduzem em informação clínica relevante. Os autores alegam que houve redução da HbA1c para menos de 6%, no entanto os valores basais já eram inferiores a 6%;
·         A ingestão calórica foi em torno de 1.700 kcal ao longo dos diversos momentos do estudo. Isso corresponde a uma dieta de menos de 22 kcal por quilo de peso. Dificilmente indivíduos obesos têm como padrão dietético habitual tamanha restrição energética. Provavelmente os pacientes incluídos no estudo estavam fazendo algum tipo de restrição calórica, ainda que não orientada diretamente pelos investigadores;
·         Os efeitos adversos foram pobremente descritos.

Pílula do Clube: O presente estudo é incapaz de responder à pergunta clínica proposta, já que as inúmeras falhas metodológicas comprometem a interpretação dos resultados. O uso de quitosan para tratamento da obesidade não pode ser recomendado com base na evidência deste trabalho.


Discutido no Clube de Revista de 23/01/2017.

Extent of Surgery for Papillary Thyroid Cancer Is Not Associated With Survival: An Analysis of 61,775 Patients

Mohamed Abdelgadir Adam, John Pura, Lin Gu, Michaela A. Dinan, Douglas S. Tyler, Shelby D. Reed, Randall Scheri, Sanziana A. Roman, and Julie A. Sosa.

Ann Surg 2014, 260(4):601-5.

Trata-se de estudo de base populacional com o objetivo de avaliar a associação entre extensão do tratamento cirúrgico e sobrevida geral em paciente com carcinoma papilar de tireoide (CPT) e correlação com tamanho tumoral. Os dados foram extraídos por profissionais treinados e certificados, através do National Cancer Database, um banco de dados de grande abrangência dos EUA, onde são registrados mais de 85% dos cânceres de tireoide recém diagnosticados. Foram incluídos pacientes com CPT com até 4 cm de extensão que tinham sido operados entre 1998 e 2006 (n=61.775). Foram excluídos pacientes com menos de 18 anos, portadores de outras neoplasias e com histologia variante insular. Os pacientes foram divididos de acordo com o procedimento realizado: lobectomia total com ou sem istmectomia vs. tireoidectomia total, quase-total ou subtotal. A sobrevida geral foi avaliada pelo método de Kaplan Meier, tanto na população total, como nos grupos com tumores de 1-2 cm e 2,1-4 cm. Foi conduzida análise multivariada com objetivo de corrigir para confundidores relacionados ao paciente (ex. comorbidades) e ao tumor (multifocalidade, limites cirúrgicos, extensão extratireoidiana, ect). Foram realizadas três análises de sensibilidade: 1. Excluiu-se os pacientes submetidos à tireoidectomia quase-total ou sub-total; 2. Excluiu-se os dados faltantes sobre comorbidades, extensão extratireoidiana e multifocalidade (disponíveis apenas após 2004); 3. Incluiu-se apenas os pacientes com dados completos. Dos pacientes incluídos, 11% realizaram lobectomia e 89% tireoidectomia. Os pacientes submetidos à tireoidectomia apresentavam mais frequentemente doença multifocal, doença com extensão extra tireoidiana, metástases nodais e à distância e margens positivas, quando comparados àqueles que fizeram lobectomia. A sobrevida geral não ajustada foi maior no grupo tireoidectomia em 5, 10 e 14 anos quando comparada ao grupo lobectomia (97,2% vs. 96,9%; 92,9% vs. 91,4% e 86,6% vs. 84,4%, respectivamente; P = 0,001). Quando realizada correção para outros fatores de risco conhecidos, tal diferença entre os grupos tireoidectomia total vs. lobectomia não se confirmou na coorte geral [HR 1,05 (IC95% 0,88-1,26)] e nos grupos com tumores de 1-2 cm [HR 0,98 (IC95% 0,73-1,07)] ou 2,1-4 cm [HR 0,96 (IC95% 0,84-1,09)]. Também não se evidenciou diferença de mortalidade entre os grupos nas análises de sensibilidades. Durante o clube foram discutidos os seguintes aspectos:
·         Pontos fortes do estudo: Grande número de pacientes; ajustes para outros fatores de mau prognóstico;
·         Apesar de não se poder excluir viés de aferição e possíveis dados faltantes/erros no registro dos dados, foram feitas análises de sensibilidade com vistas a minimizar tais vieses;
·         Os resultados desde estudo discordam dos publicados por Bilimoria et al em 2007; tal estudo foi realizado nesta mesma base de dados entre 1985 a 1998 e mostrou redução de sobrevida global em pacientes com CPT submetidos à lobectomia quando a lesão inicial era > 1 cm, mas ajustes para confundidores não foram feitos.

Pílula do clube: Não há diferença em relação à mortalidade geral nos pacientes com CPT de até 4 cm submetidos à lobectomia vs. tireoidectomia total. Contudo, tal desfecho não é o único parâmetro na decisão sobre a extensão da cirurgia a ser realizada; outros desfechos importantes não avaliados por este trabalho (recidiva local e complicações pós-operatórias) poderiam mudar a perspectiva da abordagem de tratamento.


Discutido no Clube de Revista de 16/01/2017.

Dynamic risk stratification in differentiated thyroid cancer patients treated without radioactive iodine

Denise P Momesso, Fernanda Vaisman, Samantha P Yang, Daniel A Bulzico, Rossana Corbo, Mario Vaisman, R. Michael Tuttle

J Clin Endocrinol Metab 2016, 101(7):2692-700.

            Trata-se de coorte retrospectiva de 507 pacientes com carcinoma diferenciado de tireoide (CDT) submetidos à lobectomia (L) ou tireoidectomia total (TT)  sem receber I131, avaliados com o objetivo de validar definições de resposta terapêutica dinâmicos e  desfechos clínicos relacionados, principalmente risco de persistência ou recorrência. Este sistema de resposta terapêutica já foi validado para pacientes tratados com TT e I131. Do total, 280 pertenciam ao Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSKCC), New York, USA e os outros 227 foram avaliados na UFRJ e Instituto Nacional do Câncer (INCA) RJ/Brasil. O seguimento mínimo foi de 24 meses após a terapia inicial (exceto se desfecho clínico atingido antes deste período). O seguimento – a cada 6 meses no 1o ano e a cada 6-12 meses após, foi baseado na estratificação dinâmica de risco do indivíduo. O tratamento inicial recebido foi lobectomia (n=187) ou TT (n=320). A média de idade foi de 43,7 anos, 88% eram mulheres, 85,4% foram classificados como baixo risco e 14,6% foram considerados de risco intermediário. Doença estrutural persistente/recorrente foi observada em 0% daqueles com excelente resposta à terapia (tireoglobulina não estimulada [Tg NE] para TT 0,2 ng/ml e para L 30 ng/ml, anticorpo anti-Tg (AATg) indetectável e imagem negativa – n=326); em 1,3% daqueles com resposta indeterminada  (Tg NE para TT 0,2–5 ng/ml, estabilidade ou declínio de AATg e/ou achados de imagem não específicos – n= 2/152); em 31,6%  daqueles com resposta bioquímica incompleta (Tg NE para TT 5 ng/ml e para L 30 ng/ml e/ou aumento da Tg com níveis similares de TSH e/ou aumento do AATg com imagem negativa – n=6/19); e em 100% daqueles com resposta estrutural incompleta – n=10/10 (P=0,001). Proporção significativa de pacientes com Tg NE positiva no pós-operatório sem I131 apresentaram declínio deste marcador ao longo do tempo, mesmo sem terapias adicionais. Conforme os resultados, as estimativas iniciais de risco para persistência e recorrência do ATA foram significativamente modificadas baseados na resposta a terapia inicial, logo, a proposta para avaliação dinâmica de resposta ao tratamento nos pacientes submetidos TT sem I131 e lobectomia é uma ferramenta efetiva durante o seguimento, podendo mudar a necessidade de terapias complementares. Durante o clube foram discutidos os seguintes aspectos:
      A avaliação de resposta à terapia inicial na TT/lobectomia sem I131 foi capaz de identificar pacientes com alto risco para doença recorrente, colocando a dosagem da TG em papel decisivo durante o seguimento;
      O uso de I131 após TT a fim apenas de facilitar o seguimento poderá ser dispensado;
      Uma resposta excelente à terapia diminui dramaticamente o risco de recorrência tanto no baixo quanto no intermediário risco nos pacientes em questão;
      A resposta indeterminada se aproxima muito da resposta excelente, relacionada a um bom prognóstico, sugerindo que esses pacientes podem ser manejados de forma conservadora

Pílula do Clube: A avaliação dinâmica da resposta ao tratamento de pacientes submetidos à tireoidectomia total ou lobectomia sem I131 mostrou ser ferramenta efetiva no seguimento deste tratamento.


Discutido no Clube de Revista de 09/01/2017.

Diabetes and Cause- Specific Mortality in Mexico City

Jesus Alegre-Díaz, William Herrington, Malaquías López-Cervantes, Louisa Gnatiuc, Raul Ramirez, Michael Hill, Colin Baigent, Mark I. McCarthy, Sarah Lewington, Rory Collins, Gary Whitlock, Roberto Tapia-Conyer, Richard Peto, Pablo Kuri-Morales, and Jonathan R. Emberson.


N Engl J Med 2016, 375:1961-1971.

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo com seguimento de 12 anos. O recrutamento dos pacientes foi realizado na Cidade do México entre 1998 e 2004, incluindo indivíduos acima de 35 anos residentes em dois distritos da cidade. Os pacientes incluídos responderam a questionário socioeconômico e coletaram amostra de sangue. O desfecho avaliado foi mortalidade (busca ativa em registro nacional seguida de visitas domiciliares para confirmação). Morte devida ao diabetes era considerada apenas quando ocorria por evento hiperglicêmico agudo. Na análise estatística utilizou-se o modelo de regressão de COX para avaliação de diabetes e mortalidade, ajustado para idade ao diagnóstico, fumo, e características antropométricas, calculando-se a taxa média de proporções entre pessoas com e sem diabetes. A análise de mortalidade foi estratificada por idade e por ter ou não diabetes. Pacientes com comorbidades prévias e maiores de 85 anos foram excluídos do estudo. Participaram do estudo 47.887 homens e 98.159 mulheres. A média de idade entre os pacientes diabéticos era de 59 anos e entre os não diabéticos era de 50 anos. Cerca de 34% dos pacientes com diabetes tinham HbA1c acima de 10%; 70% eram tratados com sulfoniluréias  e 19%  com metformina. Os pacientes com diabetes tiveram maior mortalidade durante o estudo; sendo que o impacto do DM sobre a mortalidade parecia diminuir com a idade: 5,4 (IC95% 5,0-6,0) entre 35 e 59 anos, 3,1 (IC95% 2,9-3,3) entre 60 e 74 anos e 1,9 (IC95%, 1,8-2,1) no grupo de 35-44 anos. A prevalência de diabetes foi aumentando progressivamente com a idade, chegando a 20% aos 60 anos. Na análise de mortalidade por causa específica, os pacientes diabéticos morreram mais por problemas renais [RR 20,1(IC95% 17,2 -23,4)] e cardíacos [RR 3,7 (IC95% 3,2 -4,2)]. De todas as mortes registradas 8 % faleceram diretamente devido a crises agudas relacionadas ao diabetes. Durante o clube foram discutidos os seguintes aspectos:
·         Este foi um dos primeiros estudos a ser realizado em um país subdesenvolvido, aproximando-se muito mais da realidade latina que estudos prévios;
·         A mortalidade dos pacientes diabéticos neste estudo foi maior, quando comparada com estudos prévios (realizados em países desenvolvidos). Esta diferença pode estar relacionada a pior controle do DM e de comorbidades e/ou diferenças sócio-econômicas;
·         Este estudo demonstrou alta prevalência de diabetes na população estudada (até 20%) quando comparado com outros estudos. O estudo demonstra uma realidade mais consistente com pacientes cronicamente descompensados e portadores de múltiplas complicações;
·         Uma grande proporção dos pacientes utilizava glibenclamida e um proporção pequena deles utilizava metformina, o que não seria esperado em grupo de pacientes com DM2;
·         Os pacientes com diabetes além de apresentarem um risco maior de morte por qualquer causa, tiveram maiores taxas de doenças que podem estar associadas a mau controle glicêmico, como doença renal e cardiovascular.

Pílula do Clube: Esta coorte retrospectiva em população latina mostra maior mortalidade dentre pacientes com diabete quando comparada com populações de países desenvolvidos, especialmente por causas renais e cardíacas.


Discutido no Clube de Revista de 07/12/2016.

Comparative prognostic performance of definitions of prediabetes: a prospective cohort analysis of the Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC) study

Bethany Warren, James S Pankow, Kunihiro Matsushita, Naresh M Punjabi, Natalie R Daya, Morgan Grams, Mark Woodward, Elizabeth Selvin

Lancet Diabetes Endocrinol 2017, 5(1):34-42 

Trata-se de um estudo de coorte prospectivo com o objetivo de comparar a capacidade de predizer complicações clínicas maiores entre as diversas definições de pré-diabetes. Foram utilizados os seguintes critérios diagnósticos: glicemia de jejum (GJ) 100-125 mg/dL, teste oral de tolerância a glicose com 75 g (TOTG) 140-199 mg/dL e hemoglobina glicada (HbA1C) 5,6-6,4% definidos pela ADA; GJ 110-125 mg/dL da OMS e HbA1C 6,0-6,4% do International Expert Committee (IEC). Os dados avaliados fazem parte do banco do estudo ARIC (Atherosclerosis Risk in Communities), cuja população foi composta por 15.972 indivíduos americanos de 45 a 64 anos. Tais indivíduos foram incluídos entre 1987 e 1989 e seguidos até 2010 a 2013 com visitas a cada 3 anos. Os critérios de exclusão foram diagnostico definido de diabetes (DM2), doença arterial coronariana (DAC), doença arterial periférica (DAP) e doença renal crônica (DRC). Foram dosadas GJ e HBA1C em 10.844 pacientes que atenderam à visita 2 do estudo ARIC e realizados GJ e TOTG em outros 7.194 pacientes que compareceram a visita 4. Calculou-se a sensibilidade, especifidade, valor preditivo positivo e negativo, razão de verossimilhança positiva e negativa e estatística C (área sob a curva ROC) para cada um dos critérios de pré-diabetes vs. normoglicemia para a avaliação dos seguintes desfechos: incidência de DM, DRC, DAC (único desfecho adjudicado), DAP e morte por todas as causas.
Em relação à prevalência de pré-diabetes no baseline, observou-se um maior número de casos quando utilizado o critério de glicemia de jejum da ADA (38% do grupo incluído na visita 2 e 30% do grupo da visita 4), quando comparado à HBA1C, principalmente utilizando o critério do IEC (9% do grupo incluído na visita 2). Os critérios de HBA1C definido pela ADA (5,6-6,4%) e pelo IEC (6,0-6,4%), bem como a glicemia de jejum da OMS (110-125 mg/dL) foram mais específicos na predição de incidência de DM2, DAC, DRC e DAP e morte por todas as causa; já a definição da ADA para GJ e TOTG foram mais sensíveis para tais desfechos. Em relação à estatística C, o uso da HBA1C como critérios de pré-diabetes se mostrou estatisticamente melhor do que GJ (definida tanto pela ADA como OMS) para predição de DRC, DAC, DAP e mortalidade de todas as causas; contudo tal diferença se manteve <0,02 pontos na maioria dos desfechos analisados, sendo considerada pequena e possivelmente não relevante. Utilizando o critério de HBA1C da ADA, houve uma melhora do Continuous net reclassification index (cNRI)  para DAC, DAP e mortalidade de todas as causas quando comparada à GJ definida pela ADA ou OMS; tal melhoria foi principalmente às custas de reclassificação dos não-eventos devido à maior especificidade da HBA1C. Durante o clube foram discutidos os seguintes aspectos:
·      Uma limitação importante do estudo foi o seu desenho algo confuso. Não houve uma comparação direta entre glicemia de jejum, hemoglobina glicada e teste oral de tolerância à glicose na população geral do baseline;
·       Outra limitação foi a disponibilização de resultados importantes apenas no apêndice, como por exemplo, o cNRI e os valores de estatística C ajustados (o apêndice não se está facilmente disponível);
·       Pelo fato de HBA1C ter sido dosada em amostras de sangue armazenadas a posteriori, os pacientes não foram informados do seu resultado, diferentemente dos pacientes com diagnostico de pré-diabetes definido pela glicose em jejum e TOTG. Isso possibilitaria um maior controle dos fatores cardiovasculares no grupo que foi informado.
Pílula do clube: Os pacientes com diagnostico de pré-diabetes definido pela HBA1C parecem ter maior risco de complicações crônicas em longo prazo, quando comparados aos que foram diagnosticados somente pelo critério de glicemia de jejum.


Discutido no Clube de Revista de 12/12/2016.

Lower versus Traditional Treatment Threshold for Neonatal Hypoglycemia

van Kempen AAMW, Eskes PF, Nuytemans DHGM, van der Lee JH, Dijksman LM, van Veenendaal NR, van der Hulst FJPCM, Moonen RMJ, Zimmermann LJI...